{"id":17309,"date":"2026-10-06T09:00:00","date_gmt":"2026-10-06T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/fcm.law\/?p=17309"},"modified":"2026-10-05T15:20:46","modified_gmt":"2026-10-05T18:20:46","slug":"relatorio-de-contingencias-cpc-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fcm.law\/en\/relatorio-de-contingencias-cpc-25\/legal-ops-inovacao\/","title":{"rendered":"Relat\u00f3rio de conting\u00eancias para auditoria e investidor: &#8220;prov\u00e1vel&#8221; n\u00e3o \u00e9 &#8220;chance de perder&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>O fim do ano fiscal e as dilig\u00eancias de rodadas de investimento do segundo semestre t\u00eam um pedido em comum que cai no colo do jur\u00eddico: a lista de processos da empresa, com o risco de cada um. Parece tarefa simples de exportar do sistema, mas o relat\u00f3rio de conting\u00eancias \u00e9 o documento em que o jur\u00eddico fala uma l\u00edngua e o contador, o auditor e o investidor ouvem outra. A palavra que mais produz ru\u00eddo \u00e9 &#8220;prov\u00e1vel&#8221;. Para o advogado, ela costuma significar &#8220;temos boa chance de perder&#8221;. Para quem l\u00ea a demonstra\u00e7\u00e3o financeira, ela tem um sentido t\u00e9cnico preciso, e a dist\u00e2ncia entre os dois sentidos distorce provis\u00e3o, balan\u00e7o e valuation.<\/p>\n<p>Entender essa diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 preciosismo cont\u00e1bil. Quando o n\u00famero do relat\u00f3rio jur\u00eddico entra na demonstra\u00e7\u00e3o financeira ou numa declara\u00e7\u00e3o de contrato de investimento, o conceito errado vira passivo subestimado, provis\u00e3o inflada ou representa\u00e7\u00e3o imprecisa, e qualquer um dos tr\u00eas reaparece depois como ajuste, qualifica\u00e7\u00e3o do auditor ou discuss\u00e3o de indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>No relat\u00f3rio de conting\u00eancias, &#8220;prov\u00e1vel&#8221; \u00e9 um conceito cont\u00e1bil<\/h2>\n<p>A classifica\u00e7\u00e3o de risco em demonstra\u00e7\u00f5es financeiras segue o Pronunciamento T\u00e9cnico CPC 25, que trata de provis\u00f5es, passivos contingentes e ativos contingentes. Nele, prov\u00e1vel significa que o evento \u00e9 mais prov\u00e1vel de ocorrer do que de n\u00e3o ocorrer, e esse patamar imp\u00f5e o reconhecimento de uma provis\u00e3o, ou seja, um valor lan\u00e7ado no passivo. Poss\u00edvel \u00e9 o que est\u00e1 abaixo desse limite, mas n\u00e3o \u00e9 remoto, e nesse caso n\u00e3o h\u00e1 provis\u00e3o: h\u00e1 divulga\u00e7\u00e3o em nota explicativa como passivo contingente. Remota \u00e9 a possibilidade baixa a ponto de dispensar tanto a provis\u00e3o quanto a divulga\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tr\u00eas faixas com tr\u00eas efeitos distintos, e &#8220;prov\u00e1vel&#8221; \u00e9 a \u00fanica que mexe diretamente no resultado do per\u00edodo.<\/p>\n<p>O problema aparece quando o jur\u00eddico usa &#8220;prov\u00e1vel&#8221; no sentido de probabilidade de \u00eaxito processual e o contador l\u00ea a palavra como gatilho de provis\u00e3o. Uma a\u00e7\u00e3o em que a empresa tem, digamos, chance razo\u00e1vel de ganhar pode ser, do ponto de vista do risco de desembolso, uma perda apenas poss\u00edvel, que se divulga sem provisionar. Se o relat\u00f3rio diz &#8220;prov\u00e1vel&#8221; querendo dizer &#8220;pode dar certo&#8221;, o contador provisiona o que n\u00e3o deveria; se diz &#8220;prov\u00e1vel&#8221; para uma perda que de fato \u00e9 mais prov\u00e1vel que n\u00e3o, e o jur\u00eddico subestimou, falta provis\u00e3o. A mesma palavra, lida em dicion\u00e1rios diferentes, erra nos dois sentidos.<\/p>\n<h2>Quando a empresa \u00e9 autora, n\u00e3o h\u00e1 risco: h\u00e1 ativo contingente<\/h2>\n<p>H\u00e1 um erro de categoria que passa despercebido nos relat\u00f3rios: tratar as a\u00e7\u00f5es em que a empresa \u00e9 autora como se tivessem &#8220;risco de perda&#8221; a classificar. N\u00e3o t\u00eam. O que existe ali \u00e9 um ativo contingente, um ganho poss\u00edvel que depende de evento futuro incerto. O CPC 25 determina que o ativo contingente n\u00e3o seja reconhecido no balan\u00e7o, para n\u00e3o antecipar receita incerta, e seja divulgado apenas quando a entrada de benef\u00edcios for prov\u00e1vel. O reconhecimento como ativo de verdade s\u00f3 ocorre quando o ganho se torna praticamente certo.<\/p>\n<p>Misturar as duas pontas, o que a empresa pode pagar e o que a empresa pode receber, numa coluna \u00fanica de &#8220;risco&#8221; produz um retrato enganoso. O passivo poss\u00edvel e o ativo contingente t\u00eam tratamentos opostos no balan\u00e7o, e um relat\u00f3rio que n\u00e3o os separa entrega ao auditor e ao investidor uma soma que n\u00e3o significa nada. A separa\u00e7\u00e3o entre polo passivo e polo ativo \u00e9 o primeiro recorte que o documento precisa deixar expl\u00edcito.<\/p>\n<h2>Os detalhes operacionais que decidem a utilidade do relat\u00f3rio<\/h2>\n<p>Em grupos com v\u00e1rias sociedades, o relat\u00f3rio precisa dizer qual CNPJ est\u00e1 no polo passivo de cada processo, porque o cadastro do tribunal registra com frequ\u00eancia a filial errada ou outra empresa do grupo, e a provis\u00e3o tem de pousar na entidade certa. Uma conting\u00eancia atribu\u00edda \u00e0 holding quando o r\u00e9u \u00e9 a controlada desloca o passivo para o balan\u00e7o errado e compromete tanto a demonstra\u00e7\u00e3o individual quanto a consolidada.<\/p>\n<p>O segundo detalhe \u00e9 o controle de vers\u00f5es. Cada atualiza\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio deveria marcar o que mudou desde a vers\u00e3o anterior, isto \u00e9, quais processos entraram, quais mudaram de faixa de risco e quais foram baixados, porque \u00e9 essa varia\u00e7\u00e3o que o auditor e o investidor acompanham entre um fechamento e outro. Entregar s\u00f3 a foto do momento, sem o diferencial, obriga o leitor a comparar planilhas na m\u00e3o e abre espa\u00e7o para que uma reclassifica\u00e7\u00e3o relevante passe sem explica\u00e7\u00e3o. Relat\u00f3rio de conting\u00eancias \u00e9 pe\u00e7a viva de m\u00e9todo jur\u00eddico, n\u00e3o anexo est\u00e1tico, e a disciplina de registrar a mudan\u00e7a \u00e9 o que o torna confi\u00e1vel ao longo do tempo.<\/p>\n<h2>Por que isso importa na rodada de investimento<\/h2>\n<p>Na dilig\u00eancia de uma rodada, o relat\u00f3rio de conting\u00eancias n\u00e3o fica s\u00f3 na contabilidade: ele alimenta declara\u00e7\u00f5es e garantias do contrato de investimento sobre processos, passivos e provis\u00f5es. Uma classifica\u00e7\u00e3o equivocada migra do balan\u00e7o para a cl\u00e1usula de representa\u00e7\u00f5es, e o que era erro de conceito cont\u00e1bil vira potencial quebra de declara\u00e7\u00e3o, com efeito sobre indeniza\u00e7\u00e3o e, \u00e0s vezes, sobre o pr\u00f3prio pre\u00e7o. O jur\u00eddico que entende como o n\u00famero ser\u00e1 lido do outro lado da mesa produz um documento que sustenta a opera\u00e7\u00e3o, em vez de plantar nela um ponto de fric\u00e7\u00e3o futuro.<\/p>\n<p>O caminho pr\u00e1tico \u00e9 construir o relat\u00f3rio j\u00e1 na gram\u00e1tica de quem vai l\u00ea-lo: faixas de risco nomeadas conforme o CPC 25, com a probabilidade de desembolso separada da probabilidade de \u00eaxito; polo passivo e ativo contingente em blocos distintos; o CNPJ correto em cada linha; e o registro do que mudou desde a \u00faltima vers\u00e3o. \u00c9 mais trabalho na origem e muito menos retrabalho no fechamento, na auditoria e na mesa de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Perguntas frequentes<\/h2>\n<p><strong>No relat\u00f3rio jur\u00eddico, &#8220;prov\u00e1vel&#8221; \u00e9 o mesmo que boa chance de perder?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o necessariamente. No CPC 25, &#8220;prov\u00e1vel&#8221; significa que a perda \u00e9 mais prov\u00e1vel de ocorrer do que de n\u00e3o ocorrer, e esse patamar obriga a provisionar. A chance de \u00eaxito processual \u00e9 outra medida; usar a mesma palavra para as duas coisas leva o contador a provisionar o que deveria apenas divulgar, ou o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Qual a diferen\u00e7a entre provis\u00e3o e passivo contingente?<\/strong><br \/>\nProvis\u00e3o \u00e9 o valor reconhecido no balan\u00e7o quando a perda \u00e9 prov\u00e1vel e mensur\u00e1vel. Passivo contingente \u00e9 a perda apenas poss\u00edvel, que n\u00e3o se provisiona e se divulga em nota explicativa. A perda remota n\u00e3o se provisiona nem se divulga.<\/p>\n<p><strong>Como tratar as a\u00e7\u00f5es em que a empresa \u00e9 autora?<\/strong><br \/>\nComo ativo contingente, n\u00e3o como risco de perda. Ele n\u00e3o se reconhece no balan\u00e7o e s\u00f3 se divulga quando a entrada de recursos for prov\u00e1vel; o reconhecimento cont\u00e1bil ocorre apenas quando o ganho \u00e9 praticamente certo.<\/p>\n<p><strong>Por que indicar o CNPJ de cada processo?<\/strong><br \/>\nPorque em grupos com v\u00e1rias sociedades a provis\u00e3o precisa recair na entidade que figura no polo passivo, e o cadastro do tribunal costuma registrar filial ou empresa errada. O CNPJ correto evita lan\u00e7ar o passivo no balan\u00e7o da sociedade errada.<\/p>\n<h2>Leia tamb\u00e9m<\/h2>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/fcm.law\/en\/governanca-de-ia-no-juridico-cnj-marco-legal\/blog-cat\/\">Governan\u00e7a de IA no jur\u00eddico<\/a>, sobre m\u00e9todo e verifica\u00e7\u00e3o no departamento jur\u00eddico.<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/fcm.law\/en\/mutuo-conversivel-ou-safe-brasileiro\/blog-cat\/\">M\u00fatuo convers\u00edvel e o SAFE brasileiro<\/a>, sobre instrumentos da rodada de investimento.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Fontes<\/h2>\n<p>Pronunciamento T\u00e9cnico CPC 25 (Provis\u00f5es, Passivos Contingentes e Ativos Contingentes), Comit\u00ea de Pronunciamentos Cont\u00e1beis; sum\u00e1rio oficial no acervo da CVM: https:\/\/conteudo.cvm.gov.br\/export\/sites\/cvm\/audiencias_publicas\/ap_snc\/anexos\/2009\/deli594-CPC25-sumario.pdf<\/p>\n<p>Lei n\u00ba 6.404, de 15 de dezembro de 1976 (demonstra\u00e7\u00f5es financeiras; arts. 176 e 177): https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l6404consol.htm<\/p>\n<p><em>Este conte\u00fado tem car\u00e1ter informativo e n\u00e3o constitui opini\u00e3o legal nem orienta\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil para caso concreto.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No relat\u00f3rio de conting\u00eancias, &#8220;prov\u00e1vel&#8221; \u00e9 conceito do CPC 25, n\u00e3o chance de vit\u00f3ria. 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